quarta-feira, 4 de março de 2015

Drinks clássicos e suas histórias


Esta história de misturar ingredientes para criar ou preparar novas bebidas não é de hoje, para você ter uma ideia os antigos gregos raramente bebiam o vinho puro, pois consideravam uma prática avessa ao bom gosto, coisa de bárbaros. O néctar de Dionísio, ou Baco, era diluído em água, adoçado com mel e temperado com as mais diversas especiarias. Preparar o vinho era uma verdadeira arte, destinada aos symposiarcas, os primeiros sommeliers ou bartenders da história.



Daí em diante, a criatividade dos bebedores foi amplamente usada a serviço das misturas, e não se limitou a usar apenas vinho como base alcoólica. Alguns drinques tornaram-se clássicos, quase tão importantes quanto a bebida pura que lhes serve de base.

Na maioria das vezes para um drinque tornar-se famoso, precisa ter berço e história, como uma espécie de certidão de nascimento, eventualmente nascem ao caso em função de algum fato ou até de um acidente.



O Sidecar, por exemplo (conhaque, suco de limão e Cointreau), foi criado em 1931 por Harry MacElhone, do Harry’s Bar de Paris, no dia em que uma moto se chocou contra o estabelecimento e quase o destruiu. Verdade ou mito, hoje já não interessa mais.




Muitas vezes, as melhores histórias sobre coquetéis são pura ficção. Um exemplo é a versão da criação da caipirinha relatada no best-seller “O Xangô de Baker Street”, de Jô Soares. No romance policial, Dr. Watson, fiel companheiro de Sherlock Holmes, teria criado o coquetel brasileiro por excelência ao acaso. Na realidade, a batida muito provavelmente foi inventada quando alguém decidiu espremer limão e misturá-lo à cachaça como um remédio para problemas respiratórios.




Momentos de tristeza também motivaram a elaboração de misturas. Foi assim em 1861. Enquanto todos na Inglaterra choravam a morte do príncipe Albert, um fiel súdito disse que, naquela data, até o Champagne deveria ficar de luto. Em seguida, serviu a bebida acrescida de cerveja preta. Estava criado o Black Velvet, ou veludo negro.



Outras misturas criadas para o espumante tiveram motivações mais alegres, como é o caso do Bellini, uma refrescante junção de suco de pêssego e espumante. O cenário era a Veneza do início dos anos 40 e o autor, Giuseppe Cipriani, do Harry’s Bar, que buscou inspiração no colorido das obras renascentistas de Giovanni Bellini.



Uma das misturas mais famosas do espumante é o Kir Royal (Champagne e licor de cassis). Criado por Canon Felix Kir, na França, a mistura inicialmente chamava-se apenas Kir e previa a utilização de vinho branco de mesa seco, mas, para ganhar nobreza, na versão “Royal”, substituiu-se o vinho de mesa pelo nobre espumante.



O cinema foi o responsável por  tornar memoráveis diversos drinks, o Dry Martini, por exemplo, deve muito de sua popularidade a Clark Gable. Em “After Office Hours” (1935),e também, a Bond, James Bond.  No entanto este drink  teria surgido ao acaso no final do século XIX, e a versão mais aceita conta que em uma espelunca, o barman Jerry Thomas teria improvisado este “rabo-de-galo” para saciar a sede de um viajante que estava a caminho da cidade de Martinez, na Califórnia. O cliente teria gostado tanto da novidade a ponto de desembolsar uma pepita de ouro para pagar a conta. A receita é aparentemente simples: gim, vermute e uma azeitona para decorar. Basta juntar as bebidas numa coqueteleira, bater com gelo e servir coada. O segredo está na quantidade de vermute – quanto menos, mais “dry”.



A fórmula foi tão disseminada que originou variações, como o Manhattan, em que o gim é trocado por bourbon e a azeitona, por uma cereja. Uma dama estaria por trás desta criação. De acordo com Steed em “Hollywood Cocktails”, a invenção aconteceu no início do século XX no New York’s Manhattan Club, a pedido de lady Randolph Churchill, mãe de Winston Churchill.



Fatos históricos desencadearam a criação de algumas combinações. O Daiquiri (rum, suco de limão e açúcar), por exemplo, era carregado pelos cubanos em cantis de couro atados à cintura. Os nativos se refrescavam com alguns goles entre a degola de um invasor espanhol e outro. Mais tarde, quando os americanos invadiram a ilha, fizeram-no pela praia de Daiquiri, batizando assim o célebre coquetel, que inicialmente consumiam “medicinalmente”, sob o argumento de prevenir a febre amarela.



A ilha de Cuba sempre foi rica fonte de mesclas a partir do rum, o destilado local. O preferido do escritor Ernest Hemingway era o Mojito (rum, suco limão, açúcar, folhas de hortelã e soda), que ele costumava beber fiado nos bares locais. Mais popular entre os moradores do recanto caribenho, porém, é a Cuba Libre, concebido por um soldado americano a serviço na ilha no início do século XX.]




Entre histórica e curiosa está a criação da Marguerita, a mais notória miscigenação à base de tequila, acrescida de Cointreau e suco de limão e servida com uma franja de sal. Muitas lendas situam a invenção no velho oeste americano. A versão mais romântica conta que foi criada por um bartender em homenagem à senhorita que emprestou seu nome à mistura. Ela teria se interposto entre ele e uma bala assassina, salvando assim a vida do amado enquanto morria em seus braços.



É ainda possível que rabos-de-galo sejam frutos de um contexto social. É o caso do Bloody Mary, surgido na Paris dos anos 20, quando os excessos eram a regra, com as noites alegres e manhãs nem tanto. O comediante George Burns, que viveu por 100 anos, feliz com seu charuto, costumava dizer: “Basta um drinque para me deixar mal, mas nunca sei se é o 13º ou o 14º.” Ele certamente só sobreviveu aos anos loucos graças a vários copos de Bloody Mary. Esta espécie de antidrinque da manhã seguinte, que agrega pecado e redenção, combate fogo com fogo. A fórmula é simples: vodca, suco de tomate e infinitas discussões sobre quais seriam os temperos ideais, sendo os mais usados o limão, o molho inglês e vários tipos de pimenta.

Reportagem Original: Como nascem os drinques de Marcelo Copello - VEJA RIO.

Fonte: O gourmet


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